Segredos inaceitáveis

GOVERNO PREDADOR

Segundo foi divulgado na quinta-feira, as despesas pagas por meio do cartão passaram de R$ 55,3 milhões, em 2008, para R$ 64,5 milhões no ano passado – uma diferença de quase R$ 10 milhões.

No momento em que o próprio governo federal provoca polêmica, em busca do que chama de "verdade" no que diz respeito ao que o próprio governo considera serem "direitos humanos", uma vez mais vêm à tona informações sobre o uso de cartões corporativos por membros do mais alto escalão da administração Lula. Por Paulo Saab

Segundo foi divulgado na quinta-feira, as despesas pagas por meio do cartão passaram de R$ 55,3 milhões, em 2008, para R$ 64,5 milhões no ano passado – uma diferença de quase R$ 10 milhões. À frente dos que mais usaram os cartões continua a Presidência da República, com R$ 15 milhões, dos quais 93% não podem ser discriminados por serem "informações protegidas por sigilo, para garantia da segurança da sociedade e do Estado".

Traduzindo: quase R$ 14 milhões foram gastos por pessoas ligadas ao presidente da República sem que o contribuinte, a população em geral, possa saber onde esse dinheiro foi consumido. Nem por quem. Isso é uma ofensa à verdade.

A Presidência informou que o aumento de 22% no uso do cartão ocorreu principalmente pelas despesas com o evento da Cúpula da América Latina e do Caribe, cujo vencimento se deu em janeiro, e pela realização do Fórum Social Mundial, no início do ano. "Nos referidos eventos, houve a participação de inúmeras delegações estrangeiras. Excluídas essas despesas,a execução nominal com o cartão de pagamentos manteve-se praticamente a mesma que a de 2008", diz a assessoria de Lula. Numa situação como esta, em que tudo é sigiloso, não será necessária também uma Comissão da Verdade?

É inaceitável que a título de segurança da sociedade (?) e do Estado (?) haja pessoas acima das leis e normas, princípios contábeis etc., que tenham permissão para gastar onde e como desejarem, sem dar satisfação à opinião pública, que é a legítima dona do Estado, formadora da sociedade e responsável pela eleição de quem gasta essa fortuna de forma sigilosa. Há tanta coisa errada, distorcida, na condução dos mecanismos republicanos de nosso País que quem acompanha e entende fica perplexo. Mas não dá para ir além da perplexidade –o que não falta no Brasil. (Num parêntese, vejam a verdadeira e popular cara de pau do governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, que vai a uma cerimônia pública, continua sorrindo no comando, sem ser incomodado por ninguém, e ainda diz que "perdoa", Nosso Jesus às avessas.)

Voltando aos gastos escondidos do governo: o Ministério da Integração Nacional (sabe-se lá o que é isso) dobrou suas despesas com cartões corporativos. O Ministério da Justiça, do revanchista e anacrônico ministro Tarso Genro, com todo respeito, passou de cerca de R$ 7 milhões em 2008 para R$ 13 milhões em 2009. É muito, muito dinheiro do orçamento público que fica solto, garantindo os privilégios e mordomias dos mandantes de plantão. Para quem não se lembra, conforme a imprensa cita, com o aumento de recursos envolvidos os gastos feitos por meio do cartão começaram a chamar atenção, principalmente os que envolviam quantias sacadas na boca do caixa.

Em 2008, o desgaste provocado pela denúncia de irregularidades na utilização dos cartões acabou derrubando do cargo a ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. E agora, não vai cair ninguém? Claro que não. Em nosso Brasil, Sarney, Arruda, funcionários graduados do Planalto, ministros, dificilmente caem, mesmo pegos em flagrante.

Cai é o nosso queixo de ver tudo isso, ter de assistir à mutação da verdadeira verdade em hipocrisia, e da falsidade em verdade – sem mecanismos, que não o voto, para mudar isso. E a propaganda maciça da falsidade não deixa a massa enxergar como tudo é feito.

O grito de inaceitável se perde no vazio.
Paulo Saab é jornalista e escritor –
Diário do Comércio


NOTA:
Inclusive,
Tarso, o campeão nas asas da FAB, segundo o Cláudio Humberto, é também o campeão de gastos secretos no governo. Ele omite do contribuinte o destino de R$ 13,56 milhões em 2009.

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