O que teme a Petrobras?

COMO É RICA ESTA PETROBRÁS!

Há pouco mais de um mês, embora conte em seus quadros do setor de comunicação com 1.150 pessoas – número de fazer inveja a qualquer órgão do gênero no Brasil e no mundo, a estatal do petróleo brasileira anunciou a contratação de uma empresa de assessoria de imprensa externa. E sem licitação ou qualquer procedimento nesse sentido.

Ao custo da bagatela de R$ 150 mil, essa assessoria terceirizada ficou encarregada de colher e sistematizar as informações que deverão ser entregues à CPI do Senado que investigará a empresa, quando e se ela for efetivamente instalada. Trata-se da tal comissão de inquérito que o presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, diz não temer, mas que tudo faz para boicotar, inclusive com ameaças veladas a parlamentares – como o fez em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" de domingo. Ontem mesmo, a CPI não temida deixou mais uma vez de ser instalada por obra e graça da base aliada. Por José Márcio Mendonça

Não bastasse a mobilização de esforços para conter as investigações sobre procedimentos no mínimo estranhos da empresa, como, por exemplo, o superfaturamento de obras da Refinaria Abreu e Lima no Recife, segundo relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU), a Petrobras acaba de contratar os serviços de um instituto de pesquisa de opinião pública para saber o que os brasileiros pensam da CPI pedida pela oposição.

De acordo com a revelação da repórter Daniela Lima, do "Correio Braziliense", o eleitor tem sido abordado para dizer, entre outras coisas, se já ouviu falar da Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, se sabe do que se trata e se acredita que ela tenha motivações políticas ou eleitorais. Por que razão a empresa está interessada nesse tipo de informação, se não para usá-la em seguida para tentar mostrar aos senadores que os brasileiros comuns são contra ela? Se por acaso a sondagem não der o resultado que a Petrobras imagina, sempre será possível guardá-la bem guardadinha, pois não tem nada de oficial.

Além do mais, a possibilidade de que uma pesquisa seja manipulada, ensinam os conhecedores dessa matéria, não é pequena. O simples modo de formular a pergunta pode direcionar a resposta. Há uma deliciosa história sobre esse tipo de procedimento que vale ser contada, para se sentir como o modo de a questão ser exposta produz respostas diametralmente opostas.

Vamos a ela. Um noviço, em uma igreja, acompanhado de um bispo excessivamente conservador, queria fumar no período em que eles estavam em oração. Raciocinou e imaginou: "Se perguntar ao bispo se posso fumar enquanto rezo, obviamente ele dirá não". Resolveu então formular a pergunta de forma inversa: "Senhor, eu posso rezar enquanto fumo?" Em um questionário para respostas "sim" ou "não", o bispo naturalmente não poderia negar a seu discípulo autorização para rezar.

A intenção da Petrobras, de conseguir com a pesquisa argumentos para "desmoralizar" a CPI, fica evidente quando põe no questionário uma indagação que poderíamos chamar de "qualificativa", visivelmente política e com intuitos bem definidos: se o entrevistado acredita que a CPI tem motivações políticas e eleitorais. É claro o objetivo de induzir o entrevistado.

Os dirigentes da Petrobras têm, seja lá porque razão for, o direito de não gostar de uma investigação sobre os seus procedimentos gerenciais por instituição que representa o cidadão brasileiro, legitimamente eleita. Porém, não tem o direito de tentar esvaziar ou desmoralizar as investigações, manipulando a opinião pública.

José Márcio Mendonça é jornalista e analista político –
Diário do Comércio

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