"Cidadão Boilesen" à la Goebbels

Depois de ler matérias sobre o documentário Cidadão Boilesen, em que Henning Albert Boilesen, presidente da Ultragaz, é qualificado como “carrasco”, “sádico”, “torturador” etc., fui ver o filme sobre esse diretor do Grupo Ultra, brutalmente assassinado em São Paulo por terroristas que se opunham ao regime militar, em abril de 1971.

Por ter na época trabalhado no Grupo Ultra, sabia da integridade e competência do Boilesen, tanto que ele havia ingressado como contador e chegara à presidência da Ultragaz, e assim pude avaliar a incongruência e verificar que ela era devida, no mínimo, a uma grande distorção, deliberada ou não, de um documentário que não afirma ser o Boilesen um diabo, mas que debilmente força esta versão. E versão que depois é a única a ser veiculada nos comentários, restando alguma diminuta menção à dúvida relegada às entrelinhas. Por João Mario Menegaz - Foto do documentário: Corpo de Boilesen após ser morto por ataque de guerrilheiros de esquerda, em 1971

O fato é que a oposição armada e o terrorismo nunca se constituíram em maior ameaça ao regime militar. Mas, devido ao fato de que sequestros e assaltos a bancos concentraram-se em São Paulo, nessa cidade foi montada uma operação policial-militar denominada Oban (Operação Bandeirantes), conduzida por oficiais do Exército, operada por policiais e financiada com recursos de empresários.

O Boilesen foi apenas um dos líderes que participaram na coleta de recursos, mas foi o que mais se expôs, devido à sua coragem e eventual desejo de se destacar, talvez por ser um profissional que viveu uma juventude humilde na Dinamarca. Outros fizeram mais do que ele, mas por não aparecerem na imprensa não foram lembrados para servirem de vítima num assassinato de cunho propagandístico.

A forma tendenciosa como o documentário foi montado e agora está sendo divulgado é tão óbvia, que, por ser um bom filme e com base em uma boa pesquisa, ele permite que com exatamente o mesmo material apresentado se chegue a conclusões exatamente opostas àquelas a que o filme e os comentários a respeito dele tentam induzir.

Por incrível que pareça: o aspecto central é o de alguns entrevistados no documentário tentarem transformar um assassinato em “justiçamento”, com argumentos de que na repressão o Boilesen colaborava com dinheiro, que sempre havia um caminhão da Ultragaz por perto e que tanto o Boilesen quanto outros empresários assistiam a seções de tortura. Descambaram até em dizer que o Boilesen era um agente da CIA e que ensinava técnicas de tortura para os policiais.

Ora, o Grupo Ultra colaborava, assim como todas as grandes empresas, e é fantasiosa, para não dizer outra coisa, a questão dos caminhões, porque na época o gás era distribuído em botijões, e então nada mais natural na paisagem paulistana do que um caminhão da Ultragaz. E, da mesma forma, a questão de Boilesen e outros empresários assistirem a sessões de tortura, como se isso fosse um programa agradável e eles não tivessem mais nada para fazer.

Aliás, sobre esta questão da assistência a torturas, que é o ponto central da mensagem “goebbeliana” do filme, não existe em todo o documentário nenhum depoimento de testemunha ocular ou documento comprobatório disso. Pelo contrário, lá está um coronel do Exército dizendo que o Boilesen só havia ido à sede da Oban uma única vez, por ocasião de uma solenidade. Ademais, ponderando-se a credibilidade dos depoimentos que aparecem no filme em função do peso e respeitabilidade das biografias dos depoentes, o Boilesen anjo daria de 10 a zero no Boilesen diabo.

Então, o simples bom senso mostra uma tentativa de mudar a história, através da desqualificação da pessoa do Boilesen, para transformar o seu assassinato midiático em “justiçamento”, talvez até para justificar os resultados contraproducentes que ele produziu para os próprios terroristas, na medida em que aumentou o apoio da sociedade e o rigor da ação repressiva. Isto ficou claro pelo forte repúdio popular e pelo clima pesadíssimo de revolta visto nos funerais do Boilesen, que teve enorme acompanhamento popular e presença de autoridades e empresários de São Paulo e de outros Estados.

O Boilesen mereceu somente ter com o seu nome uma pequena rua em São Paulo, enquanto os terroristas que o mataram e sobreviveram foram indenizados, receberam homenagens oficiais, e até hoje contam suas “façanhas” por aí, alguns do alto de cargos políticos.

Tudo uma grande injustiça que algum dia a História irá reparar. –
Jornal Zero Hora

João Mario Menegaz é Consultor financeiro

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