Prostituição financia garimpos no Suriname

Geógrafa diz que brasileiros provocaram a ira dos quilombolas por dominar técnicas de exploração do ouro

Redes de prostituição, formadas por cafetões e mulheres brasileiras, ajudam a financiar os garimpos artesanais do Suriname, emprestando dinheiro para a compra de equipamentos como dragas e bombas de pressão. Esta é um das constatações da geógrafa Maria Célia Nunes Coelho, da UFRJ, após dez anos de pesquisas sobre o tema em Belém. Ela afirmou que, por terem acesso ao capital e à tecnologia, os garimpeiros brasileiros despertaram a ira dos quilombolas locais. Por Chico Otavio

— É uma luta pelo poder. Os quilombolas, muito pobres, não dispõem das mesmas fontes de recursos dos brasileiros e ficam em desvantagem. Como os brasileiros têm o capital, dominam a atividade — explicou a geógrafa.

Este capital, segundo ela, procede principalmente de cafetões do Pará e também irriga uma rede de tráfico de mulheres para a prostituição na Europa, particularmente a Holanda (país que colonizou o Suriname).

Para chegar ao país vizinho, mulheres do Pará e Maranhão precisam se endividar com estes cafetões: — Uma vez no Suriname, elas só podem embarcar para a Europa depois de zerar os débitos. Para se capitalizar, muitas vezes elas próprias (as prostitutas), emprestam dinheiros para financiar os garimpeiros — explicou.

Albina, cidade do Suriname onde ocorreu o ataque de quilombolas a brasileiros no dia 24, está no centro do fenômeno.

Com a crise do ouro no Pará e Amapá no anos 1990, garimpeiros brasileiros atravessaram as fronteiras dos países vizinhos (incluindo Venezuela e Guiana) até chegar quase ao litoral do Suriname.

Com os garimpeiros, seguiram as prostitutas, financiadas pelos cafetões paraenses.

Maria Célia disse que o Suriname é porta de entrada destas mulheres na Holanda, assim como a Guiana Francesa, país vizinho, serve de atalho para brasileiros rumo à França.

Garimpeiros são veteranos de Serra Pelada Maria Célia acredita que os garimpeiros atacados no Suriname são veteranos de Serra Pelada (garimpo extinto no Pará), na faixa de 40 e 50 anos, e seus filhos, que cruzaram a fronteira em busca de lugares onde ainda é possível a exploração do ouro de forma artesanal — ouro encontrado no barranco das margens dos rios.

— O crescimento de Serra Pelada e Itaituba (PA), nos anos 1980, forjou uma geração de garimpeiros. Mas tudo acabou.

Hoje, só ficaram as grandes empresas.

O ouro que ainda existe, explicou a geógrafa, mas já não é explorado de forma artesanal — a presença de ouro em camadas mais profundas exige investimento em tecnologia.

No Suriname, os garimpeiros encontraram os quilombolas, chamados de “negros do mato”, que respondem por 10% da população local.

Os quilombolas, chamados de “maroons”, formam seis comunidades no Suriname, entre eles os Ndyuka, responsáveis pela agressão aos brasileiros em Albina. Seus antepassados, escravizados para trabalhar nas culturas de açúcar, café e algodão, fugiram para a floresta no século XVII e formaram sólidos aldeamentos, cuja autonomia foi reconhecida pelo governo colonial: — Hoje, os quilombolas viraram rivais dos brasileiros porque também querem se beneficiar do ouro. O Globo


CRACK VALE MAIS QUE OURO EM GARIMPOS ISOLADOS
O vício do crack em Benzdorp levou a droga, um subproduto da cocaína considerado impuro (e por isso mais barato), a valer mais do que ouro.

O preço médio de um grama de crack, suficiente para fumar até quatro "pedras", é dois gramas de ouro (cerca de R$ 105). Mas há locais mais isolados do garimpo em que a cotação sobe para três gramas de ouro por grama de crack. No centro de São Paulo, por exemplo, um grama de crack sai por no máximo R$ 40.

Mesmo com o inusitado fenômeno macroeconômico, moradores da região do garimpo falam em uma "epidemia" de viciados. É difícil considerar isso um exagero. Em dois dias circulando pelo garimpo, a reportagem da Folha viu ao menos uma dezena de pessoas, brasileiros ou surinameses, claramente sob efeito da droga, sem nenhuma preocupação com a possibilidade de repressão das autoridades.

M., um usuário brasileiro que trabalha em um supermercado e não quis se identificar, diz que não há fiscalização por parte da polícia. "O consumo aqui é livre", afirmou ele.

A droga vem de avião de Paramaribo (a capital do Suriname), trazida, segundo brasileiros, por "morenos", como são chamados por lá os surinameses que descendem de escravos negros.

A procedência é colombiana na maioria das vezes, e a droga entra no Suriname após passar pelo Caribe. As fronteiras da região são consideradas porosas. O controle aduaneiro é praticamente inexistente.

Na região do garimpo de Benzdorp, são apenas nove policiais fazendo a segurança. Muitos moradores afirmam que eles fazem vista grossa para o consumo e que alguns até participam do tráfico.

É fácil encontrar um ponto de venda ou uma boca de fumo. O isolamento geográfico ajuda a elevar o preço, e a demanda é alta, turbinada por outra epidemia local: a depressão.

"A saudade de casa e a falta de contato com os filhos deixa muitas pessoas desesperadas. O refúgio é o crack", diz o pastor brasileiro Herbert Leitão.

Dentro do garimpo, existe um subgrupo especialmente afetado: o dos "burrinhos". É deles o trabalho mais sofrido: carregar até 60 quilos de mantimentos nas costas por quilômetros mata adentro, abastecendo de mercadorias os garimpeiros que vivem isolados pela área.

Tentação
Não há sistema de saúde em Benzdorp, e menos ainda atendimento especializado para dependentes de drogas. Muitos acabam recorrendo às igrejas evangélicas.

"A tentação aqui é muito grande. Você acha um ou dois gramas de ouro e já pula um monte de mulher e traficante em cima. É muito fácil gastar tudo de uma vez", diz P., um paraense que foi viciado por quatro anos e diz ter parado após se tornar membro da Assembleia de Deus.

O tráfico de drogas na região tem gerado um surto de violência. Assaltos a supermercados (mantidos na região por chineses) têm sido mais frequentes. Há um mês, numa tentativa frustrada, criminosos deixaram dois buracos de bala na porta de um estabelecimento.

Para evitar novas ocorrências, os proprietários passaram a usar seguranças com armamento pesado na entrada de seus supermercados. (FZ e AV) – Por Fábio Zanini e Ayrton Vignola - Folha de S. Paulo

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