O
ministro Ricardo Lewandowski demorou mais de seis meses para revisar o
relatório de Joaquim Barbosa sobre o processo, iniciado há cinco anos, que
trata de um escândalo ocorrido há sete. Em países sérios, o doutor teria
entregado a encomenda na calada da noite e pela porta dos fundos, para não ter
de explicar a lentidão inexplicável. Como estamos no Brasil, pendurou-se num
palanque imaginário, caprichou na pose de magistrado exemplar e cumprimentou-se
pela performance.
“É o
voto-revisor mais curto da história do Supremo Tribunal Federal”, fantasiou. “A
média para um réu é de seis meses”. Se é assim, como registrou o
comentário de 1 minuto para o site de VEJA, Lewandowski precisaria
de 19 anos para resolver o que fazer com cada um dos 38 envolvidos. Para evitar
que fosse decidido só em 2031 o destino dos pecadores sobreviventes, o ministro
jura que andou trabalhando 20 horas por dia.
Pelo
menos não lhe faltou companhia, informa a folha de pagamento do Supremo. Além
do chefe de gabinete, do recepcionista e de três agentes de segurança, a
pequena multidão de funcionários subordinados ao ministro inclui pelo menos 17
analistas judiciários, 4 técnicos judiciários, 3 técnicos em secretariado, 1
procurador federal e 1 assistente administrativo. “Eu fiz das tripas coração
para respeitar o que foi estabelecido pela Suprema Corte”, elogiou-se
Lewandowski.
Não fez
mais que a obrigação ─ com um dia de atraso. E teria poupado as tripas do risco
de enfarte se não tivesse esperado tanto tempo para colocar no papel o que está
pronto na cabeça desde o dia em que chegou ao Supremo. “Nenhum ministro sofreu
tantas pressões”, lamuriou-se. O presidente do STF, Ayres Britto, limitou-se a
cobrar respeito ao cronograma combinado. Os brasileiros decentes limitaram-se a
cobrar respeito à palavra empenhada. São cobranças legítimas.
Nada a
ver com as pressões abusivas confessadamente feitas pelo padrinho Lula. No
começo do ano, como revelou na desastrada conversa com o ministro Gilmar
Mendes, o ex-presidente que se acha inimputável visitou o afilhado no
condomínio em São Bernardo para pedir-lhe que retardasse o julgamento do
mensalão até 2013. A reação do país que presta e os conselhos dos colegas
sensatos dissuadiram Lewandowski de atender ao pedido.
Terá de
esperar a hora da votação para mostrar que sabe ser grato. Até o cabide em que
pendura a toga sabe que o ministro vai absolver os peixes graúdos ─ “por falta
de provas” ─ e castigar com brandura de mãe meia dúzia de alevinos. Isso se
sentir a faca roçando o pescoço. Se os ventos lhe parecerem favoráveis, poderá
até decretar a absolvição póstuma de José Janene. E talvez se anime a
proclamar a inocência do Silvinho “Land Rover” Pereira, fixando em seguida a
indenização que o Estado tem de pagar ao ex-secretário geral do PT.
Mensaleiro
juramentado, Silvinho se submeteu a um período de trabalhos comunitários para
escapar do julgamento por crimes mais graves. O que torna o caso especialmente
intrigante é que foi o acusado quem se dispôs a pagar por pecados que não
existiram. Se a turma se livrar do castigo, Silvinho Pereira será imediatamente
transformado em outra maravilha da fauna tropical: a vítima voluntária de um
gravíssimo erro judicial.
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