PUBLICADO
NO ESTADÃO DESTA QUARTA-FEIRA
Não
engana a ninguém o recuo do presidente da Central Única dos Trabalhadores
(CUT), Vagner Freitas, prestes a ser empossado, da sua estrepitosa ameaça ao
Supremo Tribunal Federal (STF), a propósito do mensalão. ”Não pode ser um
julgamento político. Se isso ocorrer, nós questionaremos, iremos para as ruas”,
afirmou, segundo a Folha de S.Paulo de segunda-feira. Estampado o
desafio e decerto repreendido por algum grão-mensaleiro, alertado por sua vez
pelos seus advogados, Freitas deu uma aparente guinada.”Não temos dúvida
nenhuma de que teremos um julgamento técnico”, entoou, magnânimo, aproveitando
para cobrir o Supremo de elogios. ”Era isso o que eu gostaria de ter dito.”
Faltou
combinar com o ainda titular da central, Artur Henrique Santos. Em discurso no
11º congresso da entidade que ele chamou, sem corar, de ”independente e
autônoma” – mas no qual as estrelas da festa eram os réus ”companheiros” José
Dirceu, o ex-ministro de Lula, e Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT, além do
candidato petista à Prefeitura paulistana, Fernando Haddad ─, Henrique fez um
paralelo entre a denúncia do mensalão e o afastamento do presidente paraguaio
Fernando Lugo. Fiel à versão de Lula para o escândalo, devidamente adotada pelo
PT, o sindicalista disse que o impeachment de Lugo ”foi o que tentaram fazer
neste país em 2005”, com a revelação, a seu ver fabricada, do esquema da compra
de votos de deputados em benefício do governo petista.
Até aí,
nada de mais. Faz tempo que jaz em camadas profundas o perdão que Lula pediu
aos brasileiros, no momento de fraqueza em que também se declarou traído. O
ponto é que, enquanto o bancário Vagner Freitas fingia abafar o repto ao STF, o
eletricitário Artur Henrique o inchava. Fazendo praça do fato sabido de que a
CUT toma partido na política, embora, como as congêneres, seja subsidiada pelo
imposto sindical ─ todas poupadas por Lula de prestar contas dos milhões
embolsados ─, Henrique avisou que a organização sairá às ruas ”para impedir o
retrocesso e a volta da direita”. Ele se referia às próximas eleições
municipais, mas não seria necessário ostentar a credencial de ‘petista
histórico”, como diz a companheirada, para entender que o objeto oculto da
falação era o Supremo.
O
silogismo é elementar: se o desvendamento do mensalão foi uma tentativa de
golpe, o mesmo vale para as suas consequências: a peça do procurador-geral da
República, acolhida pela Corte, expondo, um a um, os membros da ”sofisticada
organização criminosa” responsável pela lambança, e as eventuais condenações
dos réus petistas, a começar do ex-presidente da sigla José Dirceu. Veredictos
”técnicos”, como disse Freitas na sua falsa retratação, serão os que absolverem
os mensaleiros. Sentenças condenatórias serão necessariamente políticas,
golpistas – merecedoras, antes até que se consumam, da justa ira do ”povo
trabalhador”, como Lula gosta de dizer.
Mas de
que ”golpe” se trata? Excluída, por insana, a derrubada da presidente Dilma
Rousseff, será a possível eleição do tucano José Serra em São Paulo? Ou a
reeleição do aecista Márcio Lacerda em Belo Horizonte? Assim como os terrores
de que padecem os paranoicos, a teoria conspiratória cutista tem um fundo de verdade.
Perdas
eleitorais importantes para o PT este ano ─ que a sigla tratará de
atribuir ao julgamento no STF – poderiam ter efeitos adversos para a reeleição
de Dilma, apesar dos seus estelares índices de popularidade. O destino pessoal
da presidente por quem a CUT morre cada vez menos de amores é, em si,
secundário. O desejo cutista que não ousa dizer o nome é a candidatura Lula já
em 2014. Nada deve pôr em risco a perpetuação no poder da sigla de que emana.
A
soberba, como se sabe, cega. A truculência também. Imaginam os dirigentes da
CUT que o Supremo se deixará intimidar por seus arreganhos? Ou que a
organização tem meios de criar no País um clima de convulsão capaz de ”melar” o
julgamento que tanto temem? Em outras palavras, por quem se tomam? Mas, no seu
primarismo, as investidas do pelegato petista servem para lembrar à opinião
pública a medida do seu entranhado autoritarismo e de sua aversão à democracia.

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