
(ÉPOCA – edição 737)
O Brasil ético está escandalizado com o aperto de mão
entre Lula e Paulo Maluf. O ex-presidente teria ido longe demais com esse
gesto. É uma concessão muito grave para tentar eleger um prefeito, dizem os
homens de bem. E o assunto não sai de pauta, com a corrente de indignação se
espalhando pela imprensa, pelas escolas e esquinas desse Brasil ultrajado. Todo
cientista político teve sua chance de dizer que aquela foto é um divisor de águas
no processo ideológico brasileiro, um retrocesso no campo progressista, um
monumento ao vale tudo. Mas nunca é tarde para avisar a esta nação
escandalizada: o aperto de mão entre Lula e Maluf não tem a menor importância.
Um comentarista bradava no rádio um dia desses: “Maluf
apoiou a ditadura!” Não, essa não é a grande credencial do ex-governador de São
Paulo. Vamos a ela: Maluf é procurado pela Interpol. Independentemente dos
resultados dos vários processos de que já foi réu por corrupção, Maluf é símbolo
de cinismo e trampolinagem. Mesmo assim, não pode fazer mal nenhum a Lula.
O ex-operário que governou o Brasil por oito anos
escolheu como um de seus principais aliados José Sarney. Para quem não está
ligando o nome à pessoa, Sarney é o protagonista do caso Agaciel Maia – aquele
que revelou a transformação do Senado Federal em balcão de favores
particulares. Em telefonemas divulgados pela TV em horário nobre, Sarney
aparecia usando a presidência do Senado para reger o tráfico de influência na
cúpula do Poder Legislativo. Mostrando influenciar também o Judiciário, o
parceiro de Lula conseguiu, através do filho Fernando, instituir a censura
prévia ao jornal “O Estado de S. Paulo”, até hoje proibido de mencionar a
investigação dos atos secretos operados por Agaciel.
O que fez Lula diante desse escândalo? Disse que
Sarney não podia ser julgado como uma pessoa comum. Segurou-o bravamente na
presidência do Senado. Até que a tempestade passasse, deu-lhe a mão e não
soltou mais. Qual o problema então de dar a mão a Maluf, só um pouquinho, para
eleger o príncipe do Enem?
O aperto de mão com Sarney incluiu outras manobras
típicas da ditadura que Maluf apoiou. Lula mandou sua ministra Dilma Rousseff
intervir na Receita Federal para resolver pendências fiscais da família Sarney.
Essa denúncia foi feita por Lina Vieira, ex-secretária da Receita, que contou
detalhes do abuso de poder da então chefe da Casa Civil. Lina aceitou uma
acareação com Dilma, que fugiu (e depois virou presidente).
Quando sua sucessora saiu em campanha, Lula nomeou
como ministra-chefe da Casa Civil a inesquecível Erenice Guerra. Braço direito
de Dilma, com quem confeccionou o dossiê Ruth Cardoso (contrabando de
informações de Estado para chantagem política), Erenice montou um bazar com
parentes e amigos no palácio. Apesar de ter afundado crivada de evidências de
tráfico de influência, Erenice recentemente foi puxada pela mesma mão que
apertou a de Maluf: desinibido, o padrinho já tenta publicamente ressuscitá-la.
As aventuras de Dilma e Erenice só foram possíveis com
queda do antecessor, José Dirceu – o que mostra uma verdadeira linhagem criada
por Lula na Casa Civil. E Dirceu só caiu porque o suicida Roberto Jefferson
resolveu atrapalhar um esquema que estava funcionando perfeitamente. Pois bem:
no momento em que a Justiça se prepara para julgar o mensalão, maior escândalo
de corrupção já visto na República, protagonizado por todos os homens do
presidente Lula, o Brasil resolve se escandalizar porque o chefe supremo dos
mensaleiros tirou uma foto com Paulo Maluf.
É sempre triste deixar a inocência para trás, mas
vamos lá. Coragem. Em todo o seu vasto e conhecido currículo, Maluf jamais
chegou perto de engendrar um golpe dessa dimensão: o uso do poder central para
fazer uma ligação direta dos cofres públicos com a tesouraria do partido do
presidente. O malufismo nunca sonhou com um valerioduto.
Como se vê, o Brasil, esse distraído, precisa
atualizar a legenda do famoso encontro: se quiser continuar dizendo que ali
está a esquerda sujando as mãos com a direita, vai ter que inverter a foto.
E para concluir o jogo dos sete erros: qual dos dois usou crachá de
coitado para vampirizar o Estado? Roubar a boa fé dá quantos anos de cadeia?
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