Derrubem o muro cibernético!

A tecnologia é a ponte que une hoje países tão diferentes como Irã e China, mas onde as forças de oposição ao governo enfrentam iguais restrições de expressão. Um software desenvolvido por chineses que vivem nos EUA, por exemplo, é uma esperança para o Irã.

A agitação que ocorre no Irã é o conflito quintessencial do século 21. De um lado estão os brigões do governo disparando balas. Do outro, estão manifestantes jovens disparando "tweets". O arsenal dos manifestantes, como esses "tweets" do Twitter.com, dependem da internet e de outros canais de comunicação. Por isso o governo iraniano está bloqueando alguns sites e expulsando correspondentes estrangeiros ou mantendo-os longe da ação.

A pressão para retirar testemunhas pode ser o prelúdio para uma Tiananmen (a praça chinesa) de Teerã. Contudo, uma corda de salvação secreta se mantém na internet – e isso é uma dádiva do mundo loucamente globalizado em que vivemos. Nicholas D. Kristof - New York Times


Ela foi desenvolvida por engenheiros da computação chineses nos Estados Unidos para um grupo espiritual chinês, o Falun Gong, escapar da censura do Partido Comunista.

Os chineses que apoiam o Falun Gong são hoje a maior esperança para os iranianos que tentam acessar os sites bloqueados. "Não temos coragem de cortar os iranianos", disse Shiyu Zhou, um cientista da computação e líder da resistência chinesa, chamado Consórcio Global pela Liberdade na Internet. "Mas se nossos servidores ficarem sobrecarregados demais teremos de diminuir o tráfego."

Zhou disse que o uso do software do consórcio triplicou na semana passada. Houve um recorde na quarta-feira de mais de 200 milhões de acessos vindos do Irã, representando mais de 400 mil pessoas.

Se o presidente Barack Obama quer apoiar movimentos democráticos com pouco dinheiro, deveria defender uma "iniciativa pela liberdade na internet" no Congresso, o que incluiria US$ 50 milhões específicos para as tecnologias capazes de romper a censura. O equivalente ao Muro de Berlim no século 21 é uma barreira cibernética, e podemos ajudar a furá-la.

Zhou, filho de um general do Exército chinês, disse que ele e seus colegas começaram a desenvolver o software após a repressão do governo chinês, em 1999, ao Falun Gong (que as autoridades acusam de ser uma religião). O resultado foi o software livre chamado Freegate (Portão Livre), pequeno o suficiente para ser carregado num flash drive. Ele leva um navegador para um servidor estrangeiro, que modifica os endereços IP a aproximadamente cada segundo, rápido demais para um governo bloqueá-lo, e de lá para um site bloqueado.

O Freegate equivale a um cyberkit para dissidentes. E-mails enviados por ele podem estar codificados. E depois da sessão concluída, o aperto de um botão elimina qualquer sinal de que ele foi usado naquele computador. O consórcio também oferece variantes do software, como Ultrasurf. Outro software para escapar dos censores está disponível no Tor Project e na Universidade de Toronto.

Originalmente, o Freegate estava disponível apenas em inglês e chinês, mas um número crescente de pessoas o usava em seus países, como em Myanmar. Por conta do uso cada vez maior no Irã, o consórcio introduziu uma versão em língua farsi em julho do ano passado – e sua utilização disparou. Logo, quase tantos iranianos quanto chineses estavam usando o programa, pressionando a capacidade do servidor (muitos chineses são cautelosos com o Freegate por causa de suas relações como o Falun Gong, que muitas vezes tem a desconfiança até de cidadãos comuns).

Os engenheiros do consórcio, preocupados que o tráfego iraniano iria quebrar seus servidores, retiraram o acesso no Irã em janeiro, mas o restauraram antes da eleição iraniana. "Conhecemos a dor das pessoas em sociedades fechadas e queremos ajudá-las", disse Zhou.

A China está lutando contra os "hacktivists" (ativistas hackers). O governo anunciou que os computadores novos vendidos a partir do próximo mês terão de ter um software de filtragem de internet, chamado Green Dam– Barragem Verde – e o consórcio já desenvolveu um software chamado Green Tsunami, "Tsunami Verde", para neutralizá-lo. Mais preocupante: em 2006, um engenheiro do consórcio vivendo nos arredores de Atlanta foi atacado em sua casa, espancado e teve o seu computador roubado. Os engenheiros por trás do Freegate estão mais cuidadosos para não revelar sua localização física.

Certo, essas tecnologias não são uma panaceia. Um jornalista chinês calculou que apenas 5% dos usuários da internet no país usam software proxy (que permite o acesso a sites proibidos) e os próprios iranianos organizaram uma bela revolução de massa em 1979 sem a ajuda da alta tecnologia. E, no final das contas, as balas geralmente vencem os tweets. Porém, faz diferença quando as pessoas dentro de regimes fechados têm acesso a informação – essa é a razão pela qual as ditaduras se esforçam para bloquear o acesso irrestrito à internet.

"O Freegate foi como uma ponte para o mundo exterior para mim", afirmou um jornalista chinês, com posições dissidentes, que pediu para não ser identificado. "Antes de acessar a internet pelo Freegate, eu era um cara realmente pró-governo."

Ativistas dos direitos humanos de Cuba, Coreia do Norte, Síria e de vários lugares apelaram ao Congresso para que aprovem os US$ 50 milhões para a iniciativa de liberdade na internet, e Tom Malinowski, do Human Rights Watch, afirma que também apoia. O governo Obama tem se mostrado discreto sobre a proposta. Mas para Obama, essa seria uma forma barata e eficiente de apoiar os iranianos, enquanto começa a derrubar os muros das ditaduras do século 21.

Nicholas D. Kristof é colunista do New York Times – via
Jornal do Comércio
Tradução: Rodrigo Garcia

2 comentários:

@MauroVS disse...

A ONU em conjunto com ONGs (comunistas) tem um projeto de Regionalização da Internet. Que significa redomas cibernéticas para que não se possa trocar informações entre países.

Unknown disse...

Mitos iranianos

As eleições no Irã servem perfeitamente à propaganda do Eixo do Mal, o estilo “Guerra Fria” modernizado que continua a pautar a cobertura internacional da grande imprensa. A desinformação tende a piorar com o acirramento dos ânimos, alimentando um repertório de bobagens que, sem as devidas correções, ganharão status consensual. É interessante romper esse processo de criação de falsas verdades enquanto a imprevisibilidade dos acontecimentos ainda o permite.

Fraudes provam que Ahmadinejad perdeu? – tudo leva a crer que houve uma série de irregularidades por todo o país. Mas ninguém conseguiu dimensioná-las ou determinar seus autores, enquanto vazam contagens paralelas e apócrifas que beiram o inverossímil. Nenhuma fonte iraniana confiável (incluindo vários oposicionistas) questiona a inevitabilidade da reeleição do presidente, extremamente popular entre as classes menos favorecidas e no interior.

Uma revolução em curso? – os numerosos protestos são inéditos na história recente do país. Mas concentram-se nas grandes cidades, especialmente em Teerã. O tal “clima nacional” das manifestações não foi comprovado, pois os correspondentes internacionais se restringem à capital. Ali também houve pelo menos duas grandes passeatas favoráveis a Ahmadinejad, que não receberam destaque na imprensa. O movimento oposicionista é menos organizado e uníssono do que parece.

Mousavi é liberal? – A mídia internacional sempre o considerou um radical. Hoje ele assume discurso moderado, mas jamais questiona a República Islâmica, antes defende o retorno a seus princípios originais. Foi primeiro-ministro de 1981 a 1988, período particularmente repressivo da política iraniana, que coincidiu com a guerra contra o Iraque. Seu governo perseguiu oposicionistas e impôs diversas das restrições de vestuário e comportamento que se costuma associar à dureza do regime.

Os EUA cautelosos? – É evidente (e pouco dissimulado pelo próprio governo Obama) o apoio conferido à oposição. As cifras envolvidas variam de acordo com o informante, mas coincidem na escala milionária. Sob a censura e a repressão do governo iraniano, seria materialmente impossível organizar, financiar e divulgar um movimento reformista (tão bem-sucedido quanto instantâneo) sem forte amparo externo.

Uma ótima fonte dos acontecimentos pode ser obtida nos relatos de Robert Fisk, talvez o mais importante correspondente internacional no Oriente Médio (em inglês): http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/fisk/